É preciso 7 segundos de um vídeo nas redes sociais para que todo um momento seja diminuído. Foi isso que aconteceu com o desfile da marca Blueman no Rio Fashion Week, quando colocaram dois tik tokers na passarela e enquanto desfilavam, lançaram o famoso “passinho do jamal”. Foi o suficiente para abrir toda uma discussão sobre o porquê daquela dupla estar tomando aquela posição, tendo tantos modelos profissionais que gostariam de estar ali e especialmente sendo no Brasil, país que surgiram as maiores modelos de todos os tempos.
BlueMan
Foto: Ze Takahashi / Agência Fotosite
A questão levantada sobre muitos influenciadores estarem tomando o lugar de profissionais para dar engajamento para as marcas é muito relevante. Mas tudo na vida são contextos. O desfile da Blueman utilizou o mesmo conceito que a marca sempre utilizou. Brasilidade, corpo e praia. O que mudou foi o que estava sendo representado ali. A dupla de tik tokers não estavam ocupando o lugar de profissionais. 60 modelos foram contratados, eleito o maior casting do RFW. Apenas 10 pessoas foram convidadas e estavam ali como símbolo cultural e de resistência.
Nesse sentido, a moda deixa de ser apenas estética e passa a operar como discurso. Ao incluírem esses corpos e essas figuras na passarela, a Blueman não está simplesmente buscando engajamento fácil, mas também tensionando o que se entende como “modelo ideal” e quem pode ocupar esse espaço de visibilidade. O “passinho do Jamal”, que viraliza nas redes, carrega em si referências periféricas, populares e muitas vezes marginalizadas dentro dos ambientes tradicionais da moda. E se a própria Blueman está trazendo como referência justamente a cariocaridade, por que não incluir pessoas como o vendedor do mate e a Laurinha do camarão? Quando isso entra na passarela, não é entretenimento, é um gesto político que desloca o olhar e amplia o repertório simbólico daquele espaço.
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Foto: Ze Takahashi / Agência Fotosite
Claro que essa escolha não é isenta de críticas, e nem deveria ser. A moda, enquanto indústria, sempre esteve atravessada por disputas de poder, mercado e representação. Mas talvez o ponto mais interessante dessa discussão seja perceber que esses convites não anulam a presença dos profissionais, e sim coexistem com eles dentro de uma narrativa maior. No fim, a pergunta que fica não é apenas “quem deveria estar ali?”, mas sim “quais histórias estamos dispostos a ver sendo contadas na passarela?”. Até porque quando é algum artista lá de fora no desfile da marca de luxo europeia, ninguém nem se importa e ainda aplaude. Talvez o incômodo, então, não esteja exatamente na presença de “não modelos”, mas em quem são esses corpos, de onde eles vêm e o que representam. Quando a referência é estrangeira, ela costuma ser automaticamente legitimada. Quando é local, popular e periférica, vira questionamento. E é justamente aí que a moda revela seu lado mais político.
Escrito por Letícia Capato


