Durante muito tempo, a moda no pop funcionou quase como uma extensão da indústria do entretenimento, com roupas bonitas, tendências e imagens cuidadosamente construídas para serem consumidas. A Lady Gaga apareceu ali no momento auge dos anos 2000 com esse jeito meio doido (jeito meio Gaga) que a gente já conhece. E é justamente por isso que ela chamou tanta atenção e chama até hoje. 

No final dos anos 2000, enquanto grande parte das artistas femininas seguia uma estética mais “polida”, Gaga surgiu usando plataformas enormes, máscaras, estruturas metálicas e roupas que ninguém entendia muito bem quando via pela primeira vez. Mas não era só extravagância, existia uma intenção clara de transformar cada aparição pública em algum protesto ou crítica, usando a moda como ferramenta.

Performance de “Paparazzi” no VMA em 2009. /  Kevin Mazur/WireImage 

O interessante é que ela ajudou a popularizar uma ideia de moda como performance. Antes dela, era mais comum separar a “persona artística” da forma de se vestir fora do palco. Gaga misturava tudo. Videoclipes, premiações, entrevistas e até flagras na rua pareciam fazer parte do mesmo universo visual. A roupa não funcionava apenas como styling, mas fazia parte da narrativa.

Lady Gaga chegando na Grécia vestida de Afrodite / ALKIS KONSTANTINIDIS/Reuters /Landov 

O vestido de carne no VMA de 2010 virou o maior símbolo disso. Mesmo quem não acompanhava moda ou música pop viu a imagem circular pela internet. E talvez esse tenha sido um dos grandes impactos da Gaga, entender muito cedo que, na cultura digital, moda também funciona como acontecimento. Uma roupa podia gerar debate, meme, estranhamento e repercussão mundial em poucas horas.

Photo: Getty Images 

Ao mesmo tempo, ela aproximou a alta moda conceitual da cultura pop de um jeito raro. Designers como Alexander McQueen e Thierry Mugler passaram a aparecer com muito mais frequência no imaginário popular porque Gaga levava essas referências para videoclipes, tapetes vermelhos e performances. O que antes parecia distante começou a circular de forma muito mais acessível na internet e no entretenimento.

Lady Gaga usando Mugler no videoclipe de Telephone. 

Também é interessante perceber como ela usava a aparência para brincar com identidade. Em vez de manter uma imagem fixa, Gaga muda constantemente de estética, de futurista para glam hollywoodiano, de minimalista a country e ao teatral. Hoje isso parece comum, principalmente numa época em que a internet transforma estética em tendência o tempo inteiro, mas naquela época ainda existia uma expectativa maior de coerência visual permanente para artistas pop.

De certa forma, muita coisa que vemos hoje nas redes sociais, essa ideia de criar “eras”, personagens visuais e universos estéticos, conversa com o que Gaga já fazia no começo da carreira. Ela entendeu cedo que, no pop contemporâneo, a imagem não serve só para acompanhar a música, mas também ajuda a construir significado, memória e identificação. Depois da Gaga, ficou mais difícil enxergar roupa apenas como roupa dentro do entretenimento.